Vítor Ramalho pede explicações a Mário Lino

mario_lino_s.jpgGoverno – Uma semana para esquecer

Os ‘suspeitos do costume’ voltaram a fazer-se ouvir no Governo de José Sócrates. Ao fim de uma semana de gafes ministeriais, faltava apenas que Mário Lino, o ministro das Obras Públicas que em tempos disse do Governo ser “uma orquestra”, desafinasse dos seus colegas de Executivo.Na quarta-feira, após um almoço na Ordem dos Economistas, Lino saiu em defesa da construção do aeroporto na Ota: “Acho faraónico fazer o aeroporto na Margem Sul, onde não há gente, onde não há escolas, onde não há hospitais, onde não há cidades, nem indústria, comércio, hotéis e onde há questões da maior relevância que é necessário preservar”. Mais, sublinhou, a margem sul “é um deserto”. As palavras de Mário Lino provocaram uma tempestade em todos os partidos, incluindo o próprio PS. O presidente da Federação Socialista de Setúbal considerou, em declarações ao Expresso, que as declarações de Mário Lino são “incompreensíveis”. “Não entendi de todo a posição de Mário Lino, referindo-se à Margem Sul como zona desertificada que não é”, afirmou o deputado e dirigente do PS.O ministro ainda tentou emendar as suas próprias palavras ao dizer que se referia apenas às zonas apontadas como alternativa à Ota. Mas, segundo Vítor Ramalho, “a emenda foi ainda pior do que o soneto”. Por isso, Ramalho exige esclarecimentos: “Sendo Mário Lino uma pessoa inteligente e um governante responsável, só pode ter utilizado uma metáfora, mas terá de a explicar melhor”.Posição idêntica foi assumida pela presidente socialista da Câmara do Montijo. “Nesta região há escolas, transportes, empresas e até uma universidade, no Monte de Caparica”, sublinhou Amélia Antunes contrariando as palavras do ministro.A oposição partiu para um ‘voo picado’ de críticas ao Governo. Afinados na exigência de um pedido de desculpas, a direita parlamentar acabou por ir mais longe. Paulo Portas defendeu que Mário Lino deve ser “removido”. Marques Mendes sugeriu ao primeiro-ministro que “despeça o ministro por indecência e má figura”.Mário Lino é conhecido pela sua competência técnica mas também pelo excesso de voluntarismo. Foi, aliás, o único membro do Governo a fazer humor com o seu currículo académico na ressaca da polémica sobre a licenciatura do primeiro-ministro. Há, no PS, quem ironize que Lino tem sorte por não ter como superiora hierárquica a directora regional de Educação do Norte.O chamado ‘caso Charrua’, o professor suspenso por alegadamente ter insultado José Sócrates numa conversa privada, acabou também por ensombrar a semana do Governo. Perante os pedidos de explicações insistentes à ministra Maria de Lurdes Rodrigues, um seu secretário de Estado garantiu que “a ministra não tinha nada que explicar aos deputados”.

Durante cinco dias o assunto não saiu das notícias e justificou mesmo a intervenção do Presidente da República. “não sei o que disse (o professor) ou o que não disse. Se foi uma piada em relação a um político, como é frequente no nosso país, espero que o mal-entendido seja rapidamente esclarecido”. No Parlamento, Sócrates lamentou o sucedido e afirmou só ter conhecimento do caso pelos jornais. O primeiro-ministro garantiu, no entanto, que “nem o Governo, nem alguma instituição deste país, deixará que alguém seja sancionado por uso do direito à liberdade de expressão”.

No início da semana, outro ministro, Manuel Pinho, voltou a entrar publicamente em contradição com Castro Guerra, o seu secretário de Estado-adjunto. A Delphi, empresa da Guarda, anunciou o despedimento de 500 trabalhadores. O ministro da Economia apressou-se a anunciar a ‘boa nova’ dizendo que esses despedimentos seriam absorvidos pela unidade da empresa em Castelo Branco. Castro Guerra teve de rectificar as palavras de Pinho, lembrando que os postos de trabalho em Castelo Branco já estavam preenchidos.

As últimas trapalhadas do Governo de Sócrates acabaram por motivar a intervenção de alguns deputados, na quinta-feira, durante a reunião do Grupo Parlamentar do PS na Assembleia da República. Os parlamentares socialistas consideraram que, esta semana, as intervenções atabalhoadas de Mário Lino e do Ministério da Educação, “expuseram a maioria”.

Remodelação inevitável?

Entre os socialistas contactados pelo Expresso, os acontecimentos desta semana revelam a “inevitabilidade” de uma profunda remodelação governamental. O Governo está a meio do mandato, há ministros que estão cansados, há que iniciar um novo ciclo de governação. Pragmático e prudente, Sócrates não quis aproveitar a saída de António Costa, a um mês do início da Presidência Portuguesa da UE, para o fazer. O primeiro-ministro mantém a máxima de que tem a melhor equipa e que conta com ela. Embora, nas palavras de uma fonte governamental, “se enfureça com as notícias nos jornais” sobre algumas trapalhadas, o chefe do Governo percebe que, à luz das sondagens, estas não têm tido efeito negativo na opinião dos portugueses. Mas há quem vaticine que no início de 2008, logo após a Presidência da UE, o Governo terá caras novas.

[(c)Expresso Ed. Impressa – 1º Caderno – 26.05.2007]

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