Ségolène Royal ganha novo fôlego

A quatro dias da segunda volta

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Num gigantesco comício que encheu o estádio de Charlety, em Paris, a candidata socialista ganhou um suplemento de alma para os últimos dias da campanha eleitoral. Ségolène apelou a um “último esforço” para vencer no próximo domingo, tentando contrariar as sondagens. De “rappers” a imigrantes magrebinos e de sociais-democratas a trotskistas, pode-se dizer que Ségolène teve França a seus pés.

Cerca de 40 mil pessoas lotaram o estádio de futebol de Charlety, no sul de Paris, obrigando outras 20 mil a ficar no exterior. Foi o maior comício de toda a campanha eleitoral, superior mesmo ao de Nicolas Sarkozy, dois dias antes, no pavilhão multiusos de Paris-Bercy. Na competição entre comícios, Ségolène marcou pontos. E com isso transmitiu uma ponta de esperança aos seus apoiantes, que não se pouparam a encorajá-la durante horas a fio.

As cores do arco-íris, escolhidas para decorar ambos os lados do palco, traduziram com felicidade o pluralismo que marcou esta demonstração de vitalidade. Estiveram presentes pessoas de muitas cores, como que a dar razão ao que um conhecido “rapper” negro dos subúrbios afirmou aos microfones: “A França é um pais multiracial, a França também somos nós!”.

Viam-se magrebinos (incluindo mulheres de véu), alguns orientais, uma forte representação dos territórios franceses de além-mar e alguns portugueses. Um casal de emigrantes vindo expressamente de Tours, no centro de França, exibia um cartaz onde se lia, em francês: “O PS de Portugal, com Ségolène Royal”.

No estádio, o espectro político era vasto. Desde quase todas as sensibilidades do PS – com a excepção muito notada do ex-primeiro-ministro e líder da ala esquerda, Laurent Fabius – a centristas, comunistas, ecologistas e altermundialistas, passando por trotskistas, radicais de esquerda e sociais-democratas. Uma invulgar coligação, bem traduzida num dos autocolantes mais exibidos: “Stop Sarko”.

Intelectuais, artistas e desportistas também marcaram presença, bem como homossexuais, que exibiam as tradicionais bandeiras do arco-iris ao lado das partidárias e algumas nacionais de França.

Até madame de Fontenay, figura obrigatória do jet-set parisiense, crónica promotora dos concursos de miss França, fez questão de apoiar Ségolène e, em resposta a uma saudação de um dos repórteres do EXPRESSO, começou a entoar a “Internacional” na sala de imprensa.

Royal demarca-se definitivamente de Sarkozy

Num discurso marcado por uma forte afectividade, em resposta à emoção exalada pela multidão, Ségolène começou por saudar o “Povo de França, um Povo livre, um Povo orgulhoso, um Povo insubmisso”. Logo a seguir, relembrou os grandes valores da revolução francesa e enfatizou: “A França é liberdade, igualdade e fraternidade”. Ainda nesta linha, assumiu a mais pura tradição do 1° de Maio, bem como a herança da revolta de Maio de 1968 – uma das passagens mais aplaudidas do seu discurso, numa demarcação frontal de Nicolas Sarkozy.

Com efeito, este desferira um ataque demolidor aos valores daquela revolta estudantil, considerando-os a causa de todos os males da sociedade francesa (ler reportagem neste dossier).

Mais à frente, a candidata socialista lembrou que Sarkozy não é o general de Gaulle e disse ser a candidata que garante a “paz civil”, em contraposição ao projecto do seu adversário, que considerou ser de “fractura”. “Ele quer voltar ao passado… e com isso, com a França bloqueada, voltarão as revoltas como em 1968”, afirmou.

Referindo que a França tem de voltar a ter um “papel central” no seio da Europa, propôs aplicar uma política de reformas baseada na “democracia participativa, sem brutalidade nem violência, no diálogo e na concórdia”.

À saída, Ségolène Royal atravessou o relvado no meio de uma multidão, ao som do hino da campanha, não tendo sido cantada a “Marselhesa” – ao contrário do que tem vindo a suceder. Candidata bem feminina, envergava uma saia-casaco branco e uma blusa vermelha, confirmando a sua crença neste estilo e nestas cores, que tão bons resultados lhe deram nas “primárias” no interior do PS.

Hoje, quarta-feira, Ségolène Royal tem a sua última oportunidade de inverter as sondagens, no duelo televisivo com Nicolas Sarkozy – o primeiro debate presidencial dos últimos 12 anos em França.

[(c)Expresso – 02 MAI 07; Dossiês: Eleições em França]

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